Relatos de uma Minhoca de sandália e meia branca
quinta-feira, abril 26, 2007
por terras minhas
Pois é, amigos, Barcelona é a cidade da loucura total. Foram 4 dias muito bem passados, com boa comida, companhia, óptimo tempo, arte da que eu gosto (embora o Museu Picasso nao me tenha impressionado muito) e da qual sinto que posso opinar, cheirinho a mar, sangria, muitas palmeiras, gofres (comi meio e sem chocolate, nao sei explicar porque, mas choro de arrependimento), compras e faltaram as tapas. Ou às tantas nao, eu é que nem dei por elas. É como o catalao, ai isso é uma língua? Tambem me passou ao lado.
E como nao tinha graca nenhuma, depois de 4 dias em Barcelona, voltar pra Alemanha e ir trabalhar os dois últimos dias do mes, achei melhor vir por Portugal (até fica em caminho), ver a familia, causando-lhes arritmias quando me viram entrar casa adentro, lanchar nos cafés, tirar a barriga de miséria, abastecer-me de fármacos para as minhas crises de hipondríase e enfim, dormir na MINHA casa. Porque continua a ser aqui a minha casa.
Para quem ve a Grey's Anatomy, hoje passa na Fox life um dos melhores episódios da segunda temporada. Às 21h.
Entretanto, até segunda-feira vou recarregando baterias aqui por Trás-os-Montes, onde, como dizia uma amiga ontem, estao as melhores linguicas.
sexta-feira, abril 20, 2007
os espargos podem ser fálicos
- Aaahh... tens aí espaco na tua secretária, a minha está cheia de papéis.
- Bola, esta secretária praticamente já nem é minha, está tudo arrumado, ves aqui algum sinal meu, pra alem do meu corpo na cadeira? Vai por os espargos no carro, eu hoje vim de carro. Digo eu, com um sorriso, de orelha a orelha.
Ele quase deixa cair os espargos ao chao, mas controla-se e pergunta calmamente Onde estacionaste? Depois de lhe dizer que estacionei duas ruas abaixo, ele ficou com um ar menos apreensivo, mas eu apostava bom dinheiro como ele foi lá fora procurar por sinais que proibem o estacionamento.
Diz que o tempo em Barcelona tá piroso. Pelo menos, com mau tempo já se faz melhor a mala. Ontem recebi em casa um vestido (foto) que encomendei duma revista, desses que se usam agora, muito
modernos, por cima das calcas. O padrao é num paisley vermelho e eu quando olho pra ele de perto, gosto imenso porque é bonito, um tanto quanto hippie. Expliquei isto ao Bola, com o vestido à frente do corpo enquanto me via ao espelho, e ele rematou da maneira mais feliz:- Eu percebo-te. O padrao é giro, tens razao. Mas quando o tens vestido, pareces uma velha. Ou entao uma empregada doméstica, daqueles que usam vestido pra limpar a casa.
Lá está, quando eles acham que ajudam, opinam demais e na direccao errada. Nesta fase em que eu ainda nao sei se gosto do vestido, ele devia arrastar-me para o lado ESTE-VESTIDO-É-FANTÁSTICO e nao desanimar-me. É que nao estamos na loja, onde eu ainda me possa decidir que nao.
Flossenbürg
Quando tinha 16 anos, na escola secundária ganhámos uma viagem a Estrasburgo à sede do Parlamento Europeu. Como ficámos uma semana em viagem, uma das visitas de estudo incluída no programa foi uma visita a um ex-campo de concentracao que agora, de cujo nome me voltei a recordar depois de fazer uma pesquisa na internet: Struthof.
Struthof
Ainda nao fui a Dachau. A Auschwitz muito menos.
Nestes dois campos que ja visitei, mantem-se o tratamento, as mesmas rotinas, a mesma brutalidade. A repeticao. Sistemático. Por todas as seccoes por onde se vai passando, lá está a explicacao comum a todos: a zona dos chuveiros, de onde a água saía gelada no Inverno ou a ferver. Todas as marcas pessoais dos presos eram eliminadas, cabelo cortado, roupa e objectos pessoais destruídos. A zona onde eles tinham de estar todas as madrugadas a ouvir os discursos do nacional socialismo, horas a fio, subnutridos. O registo de que muitos nem em pé se aguentavam, morriam ali mesmo. As camaratas, sem higiene, caldos de bactérias, propagacao de doencas. E depois o crematório. A entrada no cimo do monte, onde os corpos eram atirados, chegando cá abaixo apenas as cinzas.
Depois cada campo deve ter, imagino eu, a sua nota pessoal. Em Flossenbürg, os presos trabalhavam na pedra. Tinham de cortar (?), arrastar enormes blocos de granito.
Em Struthof, lembro-me de ficar perplexa quando depois de ver tantas coisas já tao horríveis, nos mostram a fornalha, onde as pessoas eram queimadas vivas. Uma cruelidade tao vil, que me faz desesperadamente querer acreditar que aquelas pessoas eram feitas de outra massa que nao a mesma que a minha,.
Temos em nós esta atraccao pelo horror, pelo mórbido. que ao mesmo tempo, nos perturba. Mas queremos ver mais, saber porque. Eu continuo a querer ir a Dachau. Sei que vou estar o tempo todo a engolir em seco, mas quero ir.
Espero é que desta vez, nao me saia uma tirada infeliz, daquelas (admito) em que nem penso e quando dou por mim, nao teve graca nenhuma. Depois de sair do campo, disse ao Bola - que maus que voces foram.
Nao teve graca. Eu ia detestar crescer com o estigma de que os meus antepassados foram responsáveis por algo além de horrível. Prefiro entao a nossa economia pobre, a corrupcao empresarial, o sistema do ensino superior que funciona na base do comércio.
Só me deu pra isto porque li que o Hitler nasceu a 20 de Abril...
quinta-feira, abril 19, 2007
Constatações
Eu nao tenho cds. Descobri há pouco tempo. E isso chateia-me. Até agora achava que as vozes na minha cabeca eram musica suficiente, mas temos sempre os chamados ventos de mudanca. Nos entretantos, oico musica clássica, que nesta idade é algo que já sei apreciar.
Hoje enviei um mail comum a todos os colegas a comunicar que me vou embora, que nao é ainda o meu último dia, mas que lhes quero dar tempo para se atirarem aos meus bracos e implorar-me que nao vá. No mail informava que podiam comecar já, que se dirigissem a mim, fazendo-se acompanhar dum tubo de ensaio com pelo menos 100ml de lágrimas. As reaccoes foram engracadas. Afinal, os alemaes teem humor, la muito escondido mas teem. Diferente do nosso, diferente do britanico, enfim, muito característico.
Entretanto, descobri que a contabilidade ja encerrou o meu processo, pelo que teoricamente ainda tenho uns dias pra trabalhar, mas na prática, nem preciso de cá por os pés. Há alturas em que nao me apetecia ter moral. E há alturas em que gostava que alguem me levasse pela mao e me ensinasse como se faz a mala. Nao sei fazer a mala. Vou no sábado 5 dias pra Barcelona. AJUDEM-ME A FAZER A MALA! (ligeiro panico)
quarta-feira, abril 18, 2007
nao tem títtulo, por ser muito grande
Sou só eu que nao suporto o José Pedro Vasconcelos e aquela cara de betalhao daqueles dignos de se colar numa caderneta?
Uma nota de vinte euros a quem lhe enfiar duas chapadas!
Actor?
Nao.
Palhaco.
viciada nisto
Confesso que ainda nao consegui deixar de ouvir o PoP! Goes my Heart. Passei a noite ontem a cantar o Pop e a dancar a coreografia lá em casa, até o Bola dizer que a musica era mesmo má. Acho que ele até disse pirosa. O que eu nao compreendo! É fantástica e faz-me desatar a dancar quando a oico. Nao consigo parar. Pop! Pop! Eu sou uma miúda dos eighties. Pronto, nao há nada a fazer. E vim parar a um país onde a moda é toda orientada em torno dos eighties. Já aconteceu ir na rua e arriscar baixinho para uma jovem que passava ao meu lado: Cindy Lauper??? Mas nunca tive uma reaccao positiva. Nem encontrei a Cindy, mas as true colors eram true, ah isso eram.A ideia ontem era ir grelhar uns bifes pra casa duma colega nossa. Isto era a ideia. Nasceu ideia e ficou ideia. É raro eu fazer planos para a pequena parte do dia após o expediente. Claro que nao fomos. Especialmente após um dia em que saio daqui a correr, para nao chegar atrasada à escola e com o tempo cronometrado para o numero de fotocópias que ainda preciso de tirar antes da aula. Ontem, de salto alto. Descobri que tenho um calo na planta do pé direito. O que dificulta a minha vida, pois eu sou um autentico Forrest Gump mas em gaja.
Os meus alunos nao reagiram com lágrimas, como eu esperava, quando lhes disse que na proxima semana nao vou estar cá. E como dia 1 de Maio é feriado, só nos voltamos a ver dentro de tres semanas. Ontem aterrou-me na aula uma jóia que nao gosta do curso onde está, por ser muito difícil. Perguntou-me se podia experimentar a minha aula. Claro que sim, mas nao era má ideia se da próxima vez nao me aparecesse lá com um bafo a cerveja, impossível de passar despercebido aos narizes dos mais distraídos. Sem a janela aberta, era possível que todos nós apanhassamos uma bezana à conta do bafo dele. Agora que penso nisso, nao tinha sido mau de todo.
Já aprendi a dancar aquela parte do pop em que me abano pra esquerda e pra direita enquanto estalo os dedos. Como eu ja disse, sou uma miúda dos eighties. Shall we dance? ;)
terça-feira, abril 17, 2007
os eighties foram muito bons
E sim, é o Hugh Grant.
Entre os vários momentos fantásticos do videoclip, temos a parte em que ele recupera o pulso na cama do hospital.
segunda-feira, abril 16, 2007
Spargelzeit /\tempo de espargos/\
Entretanto, trouxe uma garrafa de água e uma maca comigo, pois aqui impera a ideia de que eu me preocupo com a alimentacao. Nao é agora que me vou embora que vou estragar tudo.
Para o jantar saem espargos e só vos digo,
que pena que os espargos nao me passaram pela frente antes de ter vindo para as salsichas. Espargos sao óptimos, muito saudáveis e embrulhados em fiambre com umas batatinhas sao uma delícia. E pobres em calorias.Em Portugal nao há espargos, pois nao?
Diz que se dao bem com o frio. Deve ser por isso.
aprendi a fazer dumplings
Foi um fds muito bom. Fartámo-nos de passear por dois bosques encantados nos arredores de Weiden, num dos quais encontrámos uma cobra venenosa de um metro a passar mesmo ao nosso lado. Foi bonito ver o Bola a parar no meio da estrada e a proteger-me do bicho mau. Estes sao daqueles momentos, em que vemos se o nosso macho tem o instinto de nos proteger de todos os perigos. Saem vinte pontos para o Bola e uma salva de palmas.
Sábado quando cheguei a casa das compras, já estava a minha sogra enfiada na cozinha, com as panelas todas a fumegar.
- Se eu soubesse que voces precisavam de panelas, ja vos tinha comprado umas, tem havido promocoes tao boas. Porque é que nao disseste nada?
Porque eu tambem nao sabia, naturalmente. A minha sogra cozinha que é uma maravilha, aliás nao fosse ela mae. A minha Mae tambem tem os seus passes mágicos na cozinha. Feijoada...hmmmm... Os pais da minha sogra há muitos anos tiveram um restaurante e ela aprendeu imensa coisa. Tento aprender com ela pequenos truques, de coisas que só se cozinham para estes lados. Como por exemplo, Kartoffelklöße/Knödel ou em ingles dumplings, que sao umas bolas de batata que eu nao suportava, mas que agora gosto imenso.
Foi um fim-de-semana bem passado, mas melhor ainda vai ser o próximo, por terras catalas.Algum dos meninos e das meninas que conhece Barcelona se sente com vontade de me recomendar algo imperdível? Para além do que vem nos guias? Entao, digam la faxafor.
sábado, abril 14, 2007
sexta-feira, abril 13, 2007
la siesta
Sobrevivi ao maior ataque de soneira dos últimos anos. Um horror. Já me estava a ver a causar alto estrilho quando desse com a tromba no teclado e os meus colegas a tentarem ajudar-me, ou seja, a tirarem-me as teclas dos olhos e das narinas (diz que sao grandes).Eu acho que os meus ataques de sono estao estritamente ligados com o facto de eu saber que nao vou poder dormir quando sair do trabalho. Os meu sogros nao devem tardar aí e nao me posso fechar no quarto com o soninho de fim de tarde de sexta-feira, que é dos momentos mais preciosos da semana. Chego a casa, estico-me na cama, de onde já só me levanto lá pras nove da noite, pra entao, desperta, ver televisao, engomar, arrumar a cozinha, etc. Nao ha sonos trocados, porque o dia é sábado. Ora, com visitas, o cenário ja nao vai ser o mesmo. E hoje dava jeito dormir, mas nada que nao se resolva com um bom par de estalos. Com o mesmo par de estalos é como vou acordar amanha de manha quando o Bola me comecar a tentar desperar porque temos de ir ao mercado. Temos de ir ao pao. Nao me vais deixar ir sozinho e bla bla bla bla...
Em vez de amaldicoarmos os espanhóis, devíamos aprender com eles. Eu voto na sesta, quem mais?
a dor no coração
Chegados a casa, aquecemos o gulash que a Mae dele nos tinha mandado e depois do nosso passeio da digestao com 18 graus às dez da noite (ai aí chove?que pena...), fui arrumar e limpar a casa. Hoje chegam os pais dele e ficam até domingo. Nao pode haver um unico canto com pó. Como a minha sogra vai dormir no nosso quarto, há que esconder todos os meus segredos. E por bem à vista todas as prendas que ela me tem dado.
Digam-me... sou só eu ou nós, noras, fazemos todas o mesmo?
Ainda me falta libertar o frigorífico de comida mal-cheirosa e limpar duas janelas. E prometo nao me queixar de este fds nao poder dormir até ao meio-dia. Prometo.
ainda a hipocondríase
Em momentos de lucidez como hoje, consigo reconhecer sem qualquer reserva, que sou mesmo hipocondríaca, que sofro com isso, mas que acima de tudo, sou do mais ridículo que um hipocondríaco pode ser. Mas agora, como comecei a ficar com medo de mim mesma, entrei numa fase também ridícula, mas que me poe temporariamente a salvo. Cada vez que oico/leio/vejo alguma coisa sobre cancros, nao oico, mudo de canal, nao leio, vou-me embora. Deixei de consultar enciclopédias da saúde. Acumulei informacao demais ao longo dos últimos anos, tornei-me numa base de dados ambulante. Se ouvir dois, tres sintomas, o meu cérebro debita logo as possíveis doencas, que na minha ignorancia, podem corresponder ao diagnóstico. Mas penso ser este o caminho da felicidade. Porque deixar de ser hipo nao consigo. Agora passei a nao querer saber (tanto).
manguito
Só isso justifica o olhar atento da médica, que me examina com os seus enormes olhos azuis cada vez que eu lhe digo o que acho que pode ser desta vez.
Mas para já, tenho um útero sao, pronto para ser fecundado daqui a dois anos. Vou mandar um mail ao Bola a dizer-lhe para congelamos uns embrioes para o que der e vier. Por exemplo, prá semana vou pra Barcelona, posso nunca mais voltar...
E para todos os chatos que me estao constantemente a sugerir que como mulher casada (uma nova nocao de mulher) que sou, nao me devo soltar assim das amarras do matrimónio e ir curtir uns dias sem o meu esposo, deixem-me que vos diga: quero lá saber. Ele nao se importa. Eu acho saudável. Isso de sermos um só, é só nos poemas, nos dias mais romanticos e em Hollywood. De resto, somos dois indivíduos com direito ao seu espaco. E diferentes. Num ano com 365 dias, porque nao passarmos uns dias (poucos) separados? Onde está o crime? E eu nao sou assim tao moderna, mas dá-me vontade de cavar um buraco no chao e enfiar la a minha cabeca (para gritar) cada vez que me sugerem que nao é bonito, ir de debandada para Espanha sem o meu marido.
O amor duma emigrante mede-se de várias maneiras, mas nao desta.
quinta-feira, abril 12, 2007
tomatão com pernas
Bom, claro que eu quando o vi, antes de me desatar a rir e de o chamar ganda pimentao ou chili gigante (acho que optei por chili gigante), fiz o que toda a boa esposa faz, que é procurar na sua carteira mágica algo que o Bola pudesse espalhar na sua cara em chama, nao fosse ele entrar em contacto com gás (o meu, por exemplo) e fazer o prédio todo explodir. Tadinho, adormeceu ao sol no jardim do avo, e hoje nem olhou bem pró espelho antes de sair da aldeia do avo as sete da manha rumo a casa. Claro que quando comecei a perguntar às pessoas aqui se alguém tinha visto um pimento gigante, ele nao achou muita piada e disse coisas feias que incluíam o verbo desautorizar e infantil.
Mas o sol brilha, os pássaros cantam e mesmo que ele me de um sermao quando chegarmos a casa e diga coisas feias, eu vou recebe-lo com um abraco. Porque sim. Porque ando a treinar a benevolencia e abnegacao. E porque depois de tres dias em cativeiro, preciso dum amigo com quem conversar, pronto. E diz-se que uma árvore é um amigo, mas já tentei e nao me senti compreendida.
entao?
É que esse tema ia divertir mais a malta. Além disso, só vejo filmes repetidos quando o filme é mesmo bom.
quarta-feira, abril 11, 2007
porque nao é a vida como no barco do amor...?
Desde segunda-feira que estou sozinha em casa e se houvesse testemunhas, era óbvio e claro para todos que estou mesmo só. Porque ontem cozinhei massa com salmao fumado e camaroes, algo que nunca faria com o Bola la em casa. Ele nao gosta de salmao. Tive a TV ligada sempre na tvcabo, sem alternar com os canais alemaes. Jantei na mesinha da sala em frente à televisao. Fiz cocó duas vezes com a porta aberta e com uma revista no colo. Deixei a sala numa bagunca antes de me ir deitar, pois fui pra cama bebeda de sono, só me lembrando de sacudir os papeis de doces de cima de mim. Estive grande parte da noite ao telefone enquanto engomava e, antes que perguntem, sim, dói-me o pescoco. Devo ter deslocado vários tendoes. Pronto, e pra acabar o post da mesma forma que comecei... arrumei a cozinha a cantar a música do barco do amor, bem alto.
Todos temos o direito a ser pirosos quando estamos sozinhos, tá bem?
olha-me esta

Mas é óbvio que vou levar o computador comigo. É MEU!


